Em tempos de IA, as empresas se veem imersas em dilemas constantes sobre inovação: como usar essa tecnologia, como experimentá-la, como adotá-la internamente, como criar novos produtos, acelerar os negócios, repensar processos e enfrentar novos concorrentes.

Ainda assim, mesmo cercadas por toda essa aura inovadora, essa nova urgência estratégica acaba instalando uma desorganização interna que gera um efeito conhecido: os talentos já deixam de performar como antes, vão embora sem olhar para trás e os novos talentos simplesmente não chegam. O resultado é direto, qualquer inovação sonhada fica em risco, seja pela perda de pessoas-chave, seja pela atrofia operacional que isso provoca.

Esse mesmo movimento já aconteceu em outros ciclos recentes: na pandemia, na ascensão das fintechs, no boom das empresas SaaS, nos aplicativos mobile e em tantas outras transformações.

Isso ocorre porque o ambiente corporativo evolui em velocidade exponencial, enquanto as competências dos colaboradores, as metas e os modelos de gestão de pessoas evoluem de forma muito mais lenta. O resultado são atritos na operação, ruídos no trabalho e perda de eficiência.

Uma das ferramentas para mitigar isso é a revisão contínua da jornada do colaborador (saiba mais nesse artigo), que não é mais opcional, mas é a condição básica para sustentar qualquer estratégia de inovação, removendo gargalos e atritos.

Outro lado positivo dessa metodologia é nos lembrar de todas as etapas da carreira do colaborador, reforçando a proposição de valores e a busca na melhor experiência para todos. É fundamental entender que todas as pessoas, do profissional da limpeza ao CEO ou fundador, têm uma trajetória com início, meio e fim dentro de uma organização.

Todos passarão pelas etapas apresentadas abaixo:

Em nosso exemplo, a adoção de IA na empresa pode — e deve — ser definida e conectada à jornada do colaborador. No recrutamento, por exemplo, é possível avaliar o nível de domínio de IA dos novos profissionais. Já no desenvolvimento, podem ser estruturadas trilhas de aprendizado adequadas a todos os colaboradores.

Isso é colocar os colaboradores no centro, correto?

Parcialmente. Existe uma diferença sutil, porém fundamental, entre o que foi apresentado e colocar o colaborador verdadeiramente no centro da estratégia.

Na prática, muitas empresas desenham a jornada do colaborador organizando cada etapa a partir de seus próprios interesses, processos e fluxos internos, sem exercer a autocrítica necessária nem realizar os ajustes estruturais que o contexto exige. Normalmente os processos e decisões ficam centrados nas altas camadas da hierarquia da empresa.

Para o PeopleOps, colocar o colaborador no centro significa conectá-lo aos dados e aos objetivos do negócio. Vou apresentar um modelo que utilizo e implemento em nossos clientes..

Perceba que não se trata de conivência ou paternalismo, mas de formar agentes reais de crítica e transformação, capazes de remover atritos, ampliar a clareza do ambiente e acelerar tanto a performance quanto os resultados do negócio.

Instrumentos contínuos de captação de dados quantitativos (indicadores), qualitativos (pesquisas), além de dados não estruturados e "feedbacks" recorrentes, são utilizados como base para a construção de planos de ação e definição de kpis relevantes.

A partir desses dados, a organização forma grupos ou comitês compostos por decisores do alto escalão, líderes em posições estratégicas e representantes das operações mais críticas, responsáveis por definir ritos e processos para o redesenho da jornada do colaborador. Essa não é uma atribuição exclusiva do RH, mas uma atuação transversal e multidisciplinar.

A captura de dados e a autocrítica da jornada devem ser contínuas e realizadas por quem efetivamente a vivencia. Ao contratar um novo colaborador, capte dados; ao efetivá-lo, capte dados; ao promovê-lo, capte dados; ao desligá-lo, capte dados. Esses insumos retroalimentam o processo decisório e orientam novas ações do grupo.

Qual o resultado disso?

O principal ganho, sem dúvida, é conectar as pessoas de forma genuína ao negócio, fazendo com que se sintam parte do processo, ouvidas e protagonistas — removendo as travas que as impedem de performar em alto nível. Além disso, essa abordagem proporciona:

* Visão holística, multidisciplinar e maior conexão hierárquica na gestão de pessoas
* Aumento do ROI sobre os colaboradores
* Desenvolvimento de uma visão crítica sobre a gestão de pessoas
* Maior adaptabilidade e melhoria contínua da jornada do colaborador
* Design organizacional baseado em dados e visão sistêmica
* Maior alinhamento com os objetivos do negócio
* Facilidade para promover, gerir e sustentar mudanças

Colocar as pessoas no centro é uma das alavancas mais poderosas para inovação e geração de impacto nos negócios, e como dizia Arquimedes "Dê-me uma alavanca... e eu moverei o mundo".




Emerson Silva

CEO

Empreende, palestra, investe e atua com tecnologia a mais de 30 anos.
Especialista em performance, equipes, diversidade e impacto.
Fundador, CEO da Diverti Tecnologia e autor desse post.